O uso de álcool e outras drogas sempre estiveram
presentes em diferentes culturas, desde o início da civilização. Alguns
aspectos históricos nos mostram variadas formas de uso de substancias
psicotrópicas, como a importância dada a cocaína pelos incas, em que as folhas
eram consideradas símbolos divinos, e a proibição com tortura pelos russos para
quem cometesse o “crime” de tomar café. Tais acontecimentos chamam atenção para
a relação do ser humano com as drogas e suas significações para o sujeito em
diferentes épocas, para além dos efeitos químicos.
Entende-se por sujeito toxicômano aquele que estabelece
uma relação adicta com o objeto droga. Desse modo, o termo “adicto” diz
respeito a perda de liberdade e escolha frente ao objeto especifico, em que se
predomina uma ação compulsiva, incondicional para com este.
A psicanálise tem muito a oferecer no estudo e tratamento
das toxicomanias, visto que a escuta do inconsciente prioriza a dimensão do
sentido no ato toxicômano, oferecendo possiblidades a partir da singularidade e
modo de estruturação de cada sujeito.
Por tanto, a toxicomania caracteriza-se pela subversão
que nela acontece do desejo pulsional, se aproximando da necessidade tomada
como insubstituível que o objeto-droga adquire para o toxicômano, perdendo
este o poder de escolha entre usar ou
não a droga. È nítida a inversão entre sujeito objeto (droga) em que o objeto
parece vivo e o sujeito esvaziado da sua posição, adquirida nessa relação.
O objeto droga é utilizado pelo toxicômano na tentativa
de desligar-se do seu desejo, com o apagamento da sua falta, pelo caminho da
aniquilação da sua própria subjetividade, estabelecendo uma relação narcísica
com um objeto sempre a mão, no caso a droga que não a confronto entre presença-ausência,
e possibilita a ilusão de completude. Dessa forma, há uma fé depositada pelo
toxicômano nos produtos tóxicos, nas sensações e alivio da angustia que esses
propiciam utilizando-os e gozando destes sem limite algum, funcionando como um
consumidor exemplar, transformando a falta-a-ser em um vazio possível de ser
preenchido.
A droga aparece então como a solução perfeita, já que é
um objeto consumível, comprável, sempre disponível, proporcionando-lhe uma
sensação temporária de satisfação alucinatoriamente plena. Ora, podemos dizer
então que o toxicômano é aquele que segue, cegamente e sem saber, a lógica
pós-moderna do bom consumidor. Pois ele crê na promessa do consumismo de que há
um produto disponível no mercado – mercado negro, mas mesmo assim submetido às
regras do mercado capitalista.
Em contra partida, alguns autores abordam a noção de
narcisismo primário no estudo da dinâmica subjetiva dos toxicômanos, e resgatam
um posicionamento teórico de Freud, registrado na sua carta endereçada a Fliss
em que levantava a hipótese de que todas as adicções são substitutos do grande
hábito primário : A masturbação.
O narcisismo primário corresponde a uma fase
intermediária entre o autoerotismo e o amor de objeto, coincide, desse modo,
com as experiências formadoras do ego, quando o próprio ego é tomado como
primeiro objeto de investimento libidinal pelo sujeito.
Dessa forma, tal hipótese se relaciona com a toxicomania,
visto que há uma tentativa do sujeito em tornar-se independente do mundo
exterior, ou constituir um objeto controlável e onipotente, que não contrária o
desejo do sujeito, algo sempre disponível.
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