Ao longo da história, a família vem sofrendo modificações. Apesar das suas múltiplas configurações ela continua tendo como função educar, socializar, e inserir o sujeito na cultura. Desse modo, uma serie de fatores como, as mudanças na instituição famíliar e o desenvolvimento tecnocientifico influenciaram nos modos de relação entre pais e filhos, ocasionando em dificuldades no processo de socialização das crianças.
O debate sobre o exercício da função paterna na contemporaneidade, e os aspectos relacionados se faz presente entre os psicanalistas. A perda de referências identificatórias e simbólicas são associadas ao modelo tecnociêntifico. Também é destacada a inversão de posições entre pais e filhos, que torna por vezes dificultoso o processo de educação e socialização das crianças.
Lebrun (2004) aponta para uma crise geral de legitimidade dos pais, que afeta de forma feroz a educação e produz efeitos. Para o autor, toda a confusão que se vivencia hoje requer apagar a hierarquia dos lugares ocupado pelos pais. Também é destacada a inversão de posições entre pais e filhos, que torna por vezes dificultoso o processo de educação e socialização das crianças.
Na atualidade não há um pensamento de precedência, tampouco a ideia de um projeto de futuro, ocasionando a dificuldade em assegurar uma identidade. É revelada uma inversão na relação entre pais e filhos. Ao responder todas as demandas dos filhos, momento em que os pais deveriam transmitir a falta, eles acabam por inverter a relação. Ao realizar uma outra demanda para o filho que consiste em direciona-lo ao Outro social com sua promessa de totalização, é o filho quem ilustra aos pais as inúmeras formas de gozo que são oferecidas incessantemente pelo campo social que dita as seguintes premissas: consumo, eficácia, felicidade.
A discussão dessa problemática não corresponde há uma tentativa de lamentar, os direitos conquistados, mas sim que tal evolução não deve ocorrer de maneira correta se não for pensado na construção primeira do nível psíquico individual. É necessário questionar o que é fundamental para que o sujeito adentre na atual situação do laço social, e consequentemente tornar-se capaz de assumir uma posição enquanto cidadão.
O exercício de orientar as novas gerações, de forma a subtrair o gozo tem se tornado difícil pelo fato desta não ser mais assegurada pelo social. A proposta de um ideal de plena satisfação a todo momento é oferecida pelo modelo consumista, que incita a busca pelo mais-de-gozar.
A tentativa de anulação das diferenças entre função paterna e materna, ocasionada pelas mudanças Jurídicas, econômicas e sociais, anulam também as operações psíquicas que necessitam dessa disparidade para ocorrer.
Mesmo diante de tantas mudanças na família e sociedade, não se pode negar a diferença de lugares entre pais e filhos. Tal diferença é transmitida de geração em geração e poderá sempre ser entendida como base de relações na família. A decisão de poder dos filhos torna ainda mais difícil tal situação quando os pais se abstêm de suas funções, e mostram-se aptos a acordar tudo que for desejo dos filhos. Impor um limite agora não é algo evidente, e se torna arriscado pelo fato da criança não ser solicitada a crescer psiquicamente, dificultando dessa maneira assumir uma posição no laço social.
Hoje, o anseio dos pais pelo amor dos filhos é algo claramente perceptível. Se antes o amor e conquista dos filhos davam aos pais o poder de ajuda-los a crescer, impor renuncias de forma a barrar seu desejo, hoje se tem o inverso, os pais que solicitam o amor e aprovação dos filhos, perdendo total capacidade de impor limites.
Isso resulta também da produção incessante de objetos reais que prometem gozo desenfreado e encobrem a falta, levando ao questionamento todo àquele que ocupa lugar de poder ou de saber simbolicamente, tornando-o contestável, humilhado e desacreditado. Desde o pai até os professores
Torna-se absurda a impossibilidade de impor limites a uma criança em seus mais variados comportamentos transgressores, quando esta não tem consciência ao menos do seu lugar no mundo, e, no entanto, é convidada a decidir por si.
Por conta disso, os transtornos de conduta evidenciam a falta dos cuidados básicos maternos e ausência de simbolização da falta, como também trazem um apelo incessante ao pai que realize uma subtração do gozo, e instaure o mínimo de sentido a vida.
Alguns psicanalistas pontuam o movimento da incidência do mais-de-gozar sob o Nome-do-Pai. A interdição já não é o que predomina, mas o objeto a. Sendo assim, a autoridade do pai frente ao discurso sofisticado da tecnociência tornou-se um lugar passível, possível de tornar-se desacreditado. A função paterna também depende de como a sociedade sanciona sua intervenção. A família não pode abrir mão do lugar do pai, aquele que se instala pela linguagem, a ordem.

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