O SUICÍDIO EM TEMPOS DE AUTODESTRUIÇÃO

     
      Os números de casos de suicídio na atualidade aumentaram significativamente, gerando questionamentos, revolta e sofrimento. As pessoas buscam respostas e explicações para tal ato, perpassando por questões morais e sociais. Percebemos a delicadeza ao tratar do tema, por está inserido em um contexto de sofrimento intolerável do sujeito, que decide fazer uma ruptura irreversível contra a própria vida.
     Durkheim em uma de suas famosas obras sobre o tema caracterizou o suicídio como um fato social. Para o autor embora este seja um dos atos mais individuais que o ser humano possa vir a cometer, é rodeado por questões sócias, portanto, universal tendo forte influência dos tipos relações sociais e da fragilidade dessas, por isso, deve ser estudado além de uma conotação moral.Comumente isso é evidenciado nas notas de suicídio, como, cartas, bilhetes, músicas, deixadas pelos suicidas aos familiares ou amigos que atestam a íntima relação entre este ato e o laço social, expressando uma mensagem endereçada ao Outro.
    Birman explana essa questão afirmando que atualmente se tem uma pobreza de linguagem e recursos simbólicos. A não aceitação da falta leva o sujeito a buscar diferentes formas de lidar com o excesso pulsional advindo do mal-estar. Geralmente nos dias de hoje esse sujeito procura outras ferramentas para a descarga desse excesso utilizando o corpo e a ação, para uma passagem ao ato, carente de simbolização.
     Freud aborda o suicídio como algo obscuro e de causas misteriosas, afirmando que a tendência à autodestruição toma resposta na melancolia. Ele expõe o problema do suicídio a partir de duas vertentes, onde de um lado, a renúncia do eu à vida poderia ser provocada por uma decepção da libido devido a causas externas; de outro lado, a renúncia poderia provir de causas internas, de motivos próprios ao eu. Sendo assim, passa a se pensar em uma tendência de renunciar a autopreservação por parte do eu. O suicídio toma a melancolia como ponto de referência na medida em que a renúncia à autopreservação e o desapego à vida são características articuladoras do suicídio com o quadro melancólico.
     Para se compreender melhor de onde parte o suicídio na melancolia, retornaremos ao texto “Luto e Melancolia” onde Freud faz uma distinção entre essas formas de sofrimento e nos diz que as duas condições se referem a uma perda. Entretanto, enquanto no luto há a reação à perda de um ente querido, como os pais, a liberdade ou o ideal de alguém, na melancolia há uma disposição patológica, apresentando uma diminuição, um escoamento da autoestima. Portanto, é algo que se afigura no eu e que é exclusivo da melancolia, não presente no luto. O desânimo, o desinteresse pelo mundo, a incapacidade de amar, a inibição e a diminuição da autoestima culminam numa expectativa delirante de punição.
      Em uma cultura com a valorização do imediato e a aniquilação da dor a qualquer preço, o sujeito é marcado por uma impaciência com o processo de elaboração, pela falta de habilidade em lidar com a demora, e uma não aceitação da experiência dolorosa. Por esse motivo, torna-se difícil para alguns aceitar a falta que lhe é inerente, procurando formas de retirar a dor de si, realizando uma ruptura desse sentimento. Aquele que se encaminha para o suicídio assinala que tal ato está para além do que poder ser dito por palavras.
      O suicídio não tem uma causa única e explicável, porém, a sociedade permanece na busca de um significado, um motivo o qual possa tornar a existência humana tão insuportável. Muitas vezes, essa busca se faz através da religião, explicações de natureza médica, biológica, na tentativa de sanar a culpa, frustração e o sofrimento envolvidos em tal problemática.

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