DESCAMINHOS SOBRE A ANIQUILAÇÃO DA DOR


    A contemporaneidade é marcada pela falta e pelas tentativas de tamponá-la. Vivemos em uma sociedade em que os laços sociais se enfraquecem cada vez mais, gerando efeitos psíquicos ao sujeito, acometido pela ilusão do bem-estar, apresentada diariamente pelo saber cientifico que se utiliza de vários novos nomes para tratar do sofrimento psíquico, acompanhado pelo discurso de busca incessante por cura e reposta à dor.
Freud em seu texto “O mal-estar na civilização” refere-se à busca pela felicidade como a principal finalidade da vida humana. O homem busca a ausência de dor e desprazer, procura vivenciar fortes prazeres na tentativa de se tornar e permanecer feliz. Assim, a finalidade da vida é estabelecida pelo principio de prazer. O sofrimento é causado pelo próprio relacionamento com o corpo que está fadado ao declínio e a dissolução, a dor e o medo não podem ser dispensados como sinais de advertências, dando a certeza da finitude humana. O mundo externo pode nos lançar forças poderosíssimas e destruidoras, mas é o sofrimento advindo das relações com os outros seres vivos o mais doloso de todos. A tarefa de evitar tais sofrimentos direciona o sujeito à busca de conquistar o prazer.
     As pessoas encontram hoje através da mídia, comunicação e tecnologia nomes para se referirem ao que sentem, e, dizerem do que sofrem, permanecendo na busca pela descoberta da solução que irá resolver suas angustias de uma vez por todas, como algo que pode ser verdadeiramente alcançável.
     O desejo e a palavra vêm sendo substituídos por objetos em prontidão, que não permite o sujeito o questionamento de si mesmo, mas, o gozo desenfreado e a busca pelo consumo ilimitado, que nunca irá satisfazer a promessa de felicidade.
    Os problemas passaram a ter uma proposta de solução que faz o sujeito se considerar doente pelo fato de sofrer. É como se a sensação de vazio e desamparo, que ocasionalmente experimentamos de maneira mais grave, fosse um indicativo de uma doença que acomete a uns poucos desprivilegiados, da qual teríamos a todo custo que nos livrar o mais rápido possível. Tornamo-nos, assim, presas fáceis de vendedores de ilusões.
Estamos vivenciando uma tendência à promoção de laços, precisamos estabelecer ligações para lidar com as dificuldades, e buscar salvação para o desamparo humano. Há um forte e incansável investimento no amor e na sexualidade.
Foi dessa falta vivida pela contemporaneidade como falta de amor, ou insatisfação sexual, que a psicanálise nasceu. Esta serve para tratar, não para resolver ou minimizar os impasses decorrentes dessas questões que vem sendo comumente associadas a discursos que desresponsabilizam o sujeito pela sua existência, como por exemplo, as explicações para os conflitos psicológicos que excluem a história singular de cada sujeito quando parte de critérios gerais para julgar o que se considera por normal ou patológico.
A autora Denise Maurano traz uma importante discussão em relação às inúmeras propostas apresentadas a cada dia para responder a ideia de que o “bom exercício da libido” resolve as dificuldades da vida. Desde o apelo ao consumo, seja de carros, mulheres, drogas, medicamentos, conhecimento, informação, tecnologia e tudo quanto se suponha que o dinheiro possa comprar até as terapias mais diversas, tudo vai ao sentido de sanar aparentemente, apaziguar imaginariamente, as pressões da vida.
   Esse engano de não se ter a falta é percebido em sua invalidade, quando a angústia própria à condição humana continua se presentificando, sendo manifestada através dos mais variados sintomas. Apesar de que, hoje se tem uma propensão a renegar o mal-estar através da medicalização, ele continua existindo com tamanha força. Os procedimentos utilizados para mascarar e combater tal fato são muitos, um dos maiores a globalização que tenta eliminar o desejo, a incompletude, o mal-estar e desamparo inerente ao humano.
A psicanálise é um discurso que não acata o movimento cultural de apagamento da falta do sujeito, por vias quaisquer que sejam. A incerteza e a incompletude são inerentes à existência subjetiva. Os psicanalistas têm a concepção de que o sujeito precisa ser escutado em seus discursos, precisa se inquietar e questionar diante do que lhe é posto, tendo um lugar simbólico a ocupar.
Não que a psicanálise possa dar conta das problemáticas evidenciadas em nossa cultura, mas, é um campo discursivo que pode contribuir e servir para o levantamento de alguns questionamentos, quando esta diante das transformações nos modos de ser do homem contemporâneo não deixa de considerar o desejo e a palavra, preservando o lugar ocupado pelo sujeito e sua fala em meio ao caos da evolução científica e as modificações estruturais da sociedade atual.

Comentários

  1. É muito inquietante a relação do sujeito com o mundo hoje. Sendo que a relação com o afeto foi apagada do nosso cotidiano, não é permitido afeta-se pelo outro, vivemos um vazio existencial, no qual a expressão dos sentimentos são proibidas. É tanto que a contemporaneidade nos tornou seres incomunicável, distantes e fazios, aponto de esquecermos a comunidade e focar apenas no que desejamos realizar e conquistas. Não podemos nem nos auto elogiar que gera repúdio dos outros, já que é proibido expressar que o outro é bom em algo. Tornamos sujeito individuais, na qual a relação com o outro deve partir de troca, o que você tem que me interessa. O que se faz necessário refletir sobre nossas relações, será que elas são verdadeiras ou é enquanto tiver proporcionando troca, sem dá liberdade ao outro?

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    1. O que observamos é uma forte predominância na sociedade atual da anulação do desejo, da fala, e por esse motivo as relações também se modificaram. O próprio sujeito inserido nessa lógica de funcionamento acaba respondendo a tal modo.

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