A BARBÁRIE ENTRE OS CIVILIZADOS



      É fácil perceber que vivemos em uma época de grandes perturbações, violência e barbárie. A contemporaneidade é Caracterizada por mudanças significativas provocadas e vividas pelo homem. Essas influenciaram os modos de ser e se relacionar da humanidade vem causando diferentes manifestações de sofrimento que revelam o mal-estar e o desamparo psíquico social.
    Uma das problemáticas em relação à violência humana nas relações do homem consigo mesmo e com os outros diz respeito as tentativas de explicações ou justificativas das razões para o cometimento de atos violentos.
    Freud revela seu interesse nessa problemática quando buscou a origem da violência e da agressividade nos estudos antropológicos. Em totem e tabu, Freud, a partir de tribos estudadas e descritas por antropólogos, realizou um estudo sobre a origem da civilização percebendo que entre os primórdios, aborígenes australianos considerados selvagens, havia uma proibição fortemente implantada que consistia na proibição de manter relações sexuais com os membros de um mesmo clã. O pai tirano, malvado e detentor de todas as mulheres foi morto pelos filhos. Como resultado desse assassinato, surgiu o totemismo e, mais tarde, as religiões. Surgiu também o sentimento de culpa, o qual fez com que os filhos se organizassem para não repetir o mesmo ato.
    Nesse estudo, Freud destacou como se dava a relação do homem com o totem realizando uma interpretação dos aspectos mais primitivos do homem moderno, especialmente a violência, que já era estuda por vários filósofos e pensadores da época, como ocorre ainda hoje. A partir disso, Freud se refere a origem da violência como um vestígio, um registro do crime primordial. A morte do pai da horda pelos filhos instituiu uma cumplicidade entre os irmãos diante do crime e também da vitória gerando um novo vinculo social, que manteria a orda como uma comunidade marcada por esse ato violento.
    Os termos civilização e barbárie nunca estiveram distantes um do outro, sendo necessária a exploração e discussão sobre tal relação. Os acontecimentos recentes, como os ataques terroristas nos mostram e confirmam a confluência existente entre civilização e barbárie.
     Em seu texto crepúsculo de uma civilização Novaes (2004) diz que a existência humana está dividida entre um naturalismo e artificialismo exacerbados de tudo, a começar pelo descrédito da política, a desvaloração dos acontecimentos éticos e morais, a fragilidade das relações sociais, e as verdades estabelecidas pela técnica e pela ciência.
     O que se evidencia a partir de todos os acontecimentos cercados de violência na contemporaneidade é a ausência de sentido para o termo civilização. Não que isso esteja acontecendo somente agora. Sabemos que a civilização ocidental sempre viveu em crises. O mal- estar também foi expresso durante as guerras e ataques em outras épocas. A diferença é que existia um caminho que indicava o futuro, que permitia esperança de paz. Hoje, o que se tem de novo no estado presente é o sentido de descontinuidade e ausência de um futuro, em um presente vivido de forma fugaz. Imaginar o futuro tornou-se impossível, pois, passamos a ser dominados por uma vida conturbada, volátil e efêmera.
     Os tipos de violência em coletividade e multidões vistas nas guerras não se limita a elas. Os mesmos comportamentos, características, são evidentes em situações do cotidiano, como nas lutas ideológicas, campeonatos de futebol, ideologias políticas. A violência e o ataque a tudo aquilo que representava ordem tem se tornado cada vez mais comum.
     A presença do mal, da agressividade ameaçam a prudência humana, afeta a garantia e a esperança de que a vida em sociedade possa ter uma direção. Freud insiste muito em algumas de suas obras que a violência é inimiga da civilização, apesar de defender caminhos para a evolução do processo civilizatório. A busca pela verdade atendendo nossos desejos e necessidades determinam as bases da nossa cultura.

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