Na infância se dá o início da constituição do sujeito e, este, por sua vez, está integrado a uma família que passa a ter funções imprescindíveis na sua constituição. É no contexto familiar que a criança vivência suas primeiras experiências, as quais se dão a partir do lugar que ela ocupa no desejo do outro materno e do posicionamento do pai frente a esse desejo. Trata-se de um complexo, a qual Freud denomina por complexo de Édipo, em que tanto a criança quanto os pais estão envolvidos e a sua vivência e elaboração dependerá de como a família se organiza e como os pais elaboraram suas próprias experiências infantis e edipianas.
Sabemos que as relações conjugais em muitas famílias são marcadas por conflitos nas quais a criança acaba sendo colocada numa posição de sustentação da relação do casal. Tomada essa função, enquanto sujeito sem lugar, a criança tampona aquilo que dos pais aparece como faltoso e que gera tensão. Nesta situação, ocupando um lugar de objeto, esse sujeito em desenvolvimento encontra como saída a formação de sintomas numa tentativa de denunciar ou revelar a problemática daqueles. Saída, essa, que poderá levá-la a ocupar um lugar enquanto sujeito, a partir da manifestação de tais sintomas.
Falar de sintoma em uma perspectiva psicanalítica é acima de tudo, inclinar-se sobre uma outra ordem de escuta para o sofrimento do qual discursam os pacientes. É partir da demanda, trazida pelos pais, que pode ser percebido o modo como sintoma é constituído na criança. Assim, o sintoma pode se apresentar como uma resposta construída a partir da angústia dos pais, resultante da posição ideal infantil parental.
As crianças através dos seus sintomas estabelecem um laço que as mantém na fragilidade com a qual os adultos têm exercido suas funções parentais, isso as leva a expressarem no seu corpo em suas ações o que ainda não conseguem fazer com as palavras.
Os vários sintomas normalmente apresentados nas crianças como hiperatividade, agressividade, entre outros, fazem demandar do olhar dos pais a partir de suas dificuldades, seria uma forma, produzida pelo seu sofrimento, de convocar os pais a ocuparem o lugar que lhes foi delegado em nossa sociedade. Esse lugar experimentado como falta é lugar também do desejo que leva a criança a se apresentar como sintomática para enfim, poder enunciar uma cadeia de significantes, e se representar enquanto sujeito existente.
Lacan no texto “Duas Notas sobre a Criança” ressalta que para uma criança se constituir enquanto sujeito, ela será antes disso, assujeitada ao desejo do Outro, a família seria então, a base sobre a qual se sustentam os sintomas da criança. Por tanto, antes de uma criança nascer, há algo que a antecede, que instaura ou organiza, um lugar onde ela poderá se constituir. E é por meio da linguagem e do discurso daqueles que fazem parte do meio familiar que é instituído seu vir-a-ser. È pelo olhar do outro, pelo que é dito sobre a criança antes mesmo do seu nascimento, pelos significantes que lhe são atribuídos que essa irá assumir uma posição no laço social. Nesse sentido, Lacan chama atenção para o fato de que o sintoma desenvolvido pela criança pode ser algo sintomático da dinâmica familiar, do casal ou um dos pais.
Quando se olha para o sintoma na análise infantil, irá aparecer a maneira pela qual a criança é marcada, não só pela forma que é esperada antes do nascimento, mas também pelo que em seguida irá representar para um e outro dos pais em função da história de cada um. Sua existência real poderá chocar-se com as projeções paternas inconsistentes, formada por muitos equívocos.
É por esta constatação dos liames estabelecidos entre os pais e filho que se faz necessário escutar os pais em entrevistas durante a análise da criança. Sabendo que os pais estão implicados no sintoma do filho precisamos, também, ajudá-los a começar questionamento de suas dificuldades. As entrevistas com os pais não tem como objetivo, em hipótese nenhuma, de orientá-los ou fazer sua própria análise. Porém, a premissa de que pais e filho estão implicados entre si leva, necessariamente, a admitir que na cena analítica os pais estejam sempre presentes trazidos no discurso da criança e principalmente através dos sintomas.
Dolto faz uma importante consideração a respeito disso, quando diz que a criança é aquela que encarna e presentifica através dos seus sintomas o resultado de um conflito vivo, familiar ou conjugal, velado e aceito por seus pais.
Isso diz respeito à criança arcar, inconscientemente, com a força das tensões e das interferências provenientes da dinâmica emocional, sexual, inconsciente em ação nos pais, a qual poderá causar o desenvolvimento de sintomas, cuja função será assumir outra posição de sujeito que não a de objeto que lhe fora colocada.

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