A MORTE E A DOR DE QUEM FICA

          O ser humano é o único capaz de pensar nas questões da sua finitude. ao nascer o sujeito passa pelo curso natural da vida de se desenvolver e morrer. A questão da morte é colocada em ampla evidência no cotidiano, e denunciam o desamparo contemporâneo. Em tempos em que os avanços da biotecnologia e da medicina levam a crer na possibilidade da imortalidade, encontra-se também, o mais cruel descaso com a vida humana.
        Com o passar dos tempos, houve uma progressiva mudança na forma como a morte é significada socialmente. Perdeu-se a concepção de morte domada por uma rede de símbolos e ritos que determinavam um lugar social para a morte, facilitando a simbolização pelos indivíduos relacionados ao morto. As práticas que tendiam a isolar a morte do processo vital foram ganhando espaço. Cada vez mais a morte foi perdendo sua inserção social e sua faceta humana para ser silenciada e apartada do círculo das relações sociais, dificultando a elaboração da morte e do luto.
       O medo da morte é tratado em psicanálise como fruto de deslocamento do desejo sexual que se aproxima da angústia de castração. Freud passa a reconhecer a importância da morte na constituição da personalidade, a partir dos pressupostos sobre a pulsão de morte como o mais importante da pulsão. Assim, pode-se entender a morte como uma realidade presente desde o nascimento, que desperta numerosas fantasias e as correspondentes defesas contra ela.
       As formas com que o sujeito de relaciona com o objeto é a base para pensar a estrutura da personalidade como um todo. Dessa forma, a identificação inicial com o objeto materno e sua posterior perda é fundamental para a constituição de um núcleo de identidade psíquica que se refere ao sentido do Eu, essa identidade é constituída a partir das relações com o outro e o luto pela perda do objeto primordial.
          A morte para a psicanálise parte de sua possibilidade de representação, ou seja, a possibilidade de significação da morte no psiquismo e, mais propriamente, no inconsciente. Freud em “Luto e Melancolia” assinala que o processo de luto é um redimensionamento das fantasias e defesas do psiquismo, em busca de um novo equilíbrio de forças. O trabalho de luto, contudo, nem sempre é satisfatoriamente elaborado. Além do luto patológico,
em que esse trabalho se cronifica e cristaliza, temos, também, um paralelo com a patologia melancólica.
          Àries faz importantes contribuições sobre a posição que a morte e o luto ocupam na sociedade contemporânea. Para o autor, a morte vem sendo caracterizada como vergonhosa e o luto como sendo proibido, perdeu- se o direito de chorar e enlutar-se pela perda do objeto expulsando a morte do cotidiano. Assim, as manifestações aparentes de luto são condenadas e desaparecem.
       As tendências suicidas e os casos de depressão desenvolvidos diante do luto progridem ao longo da vida, e se manifestam com força em algumas situações de perdas. O desenvolvimento de patologias, se tratando do luto pode ser entendido como um reflexo da estruturação básica da personalidade de cada sujeito, constituída pelas identificações narcísicas e edípicas ao longo da infância.
        Tomamos para essa relação do luto como reflexo da estruturação subjetiva do sujeito, o fato de que a perda de um ente querido, por exemplo, torna-se avassaladora e insuportável para alguns e para outros não. A perda atual pode está ligada a um complexo de fantasias inconscientes, com o retorno de impulsos e defesas, desestabilizando a estrutura dinâmica da personalidade.
Na contemporaneidade, estão sendo utilizadas várias ferramentas a fim da contenção da dor e sofrimento. A medicalização é muitas vezes, utilizada com a tentativa de “apagamento” do sofrimento do sujeito. Quem está sofrendo não produz, não gera lucros, e por isso somos obrigados a nos distanciarmos da própria dor, em detrimento da lógica mercadológica e capitalista, que desconsidera as condições psíquicas do sujeito presentes no processo de luto e a manifestação da sua dor.
       A repressão dos sentimentos diante da dor que parte da perda é prejudicial, torna-se então, necessário que a morte seja reconhecida como algo real e o luto vivenciado. Este poderá ser experienciado de diferentes formas, que seguirão de acordo com a capacidade de elaboração do sujeito diante da perda, sendo um processo inevitável, posto pela a finitude humana.

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