DEPRESSÃO PÓS-PARTO E TRISTEZA MATERNA




            Há um tabu cultural em relação ao tema gestação e depressão, mantido pelo pressuposto de que a mulher deve estar radiante e feliz pelo nascimento de um filho. Por essa razão o sofrimento de uma mãe durante ou após a gestação é visto por muitos como ingratidão, e, incapacidade da mesma em valorizar a maternidade. Infelizmente, de maneira equivocada, o senso comum tende a esconder a real natureza da tarefa de vir a ser mãe, subjugando assim, aquelas mulheres que apresentam sofrimento psíquico e reagem de forma diferente a esse processo, como nos casos em que se desenvolve o quadro de depressão pós- parto.
         O pensamento, de que a chegada de um filho é isenta de ambiguidade, tende a dificultar o auxílio a mães que precisam de cuidados. Algumas mulheres não conseguem admitir para si mesmas que merecem ajuda, passando a esconder, muitas vezes da própria família o estado que se encontram.
A Depressão Pós-Parto (DPP) é um quadro clínico severo e agudo que requer acompanhamento psicológico e psiquiátrico, devido à gravidade dos sintomas. Aparecem sintomas como irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, doenças psicossomáticas, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades do dia-a-dia, sensação de incapacidade de cuidar do bebê, chegando ao extremo de pensamento suicidas e homicidas em relação ao bebê. O diagnóstico precoce é fundamental e para isso é necessário um acompanhamento em todo ciclo gravídico-puerperal, sendo a melhor forma de evitar, atenuar ou reduzir a duração da DPP.
             Para a psicanalista Iaconelli, existe um processo de transformação psíquica, em que a mulher necessita passar durante o ciclo gravídico-puerperal, construído por três grandes momentos que englobam etapas vividas de formas diferentes para cada sujeito. Primeiro, ocorre a transformação da filha em mãe, seguida da transformação da autoimagem corporal e da relação entre a sexualidade e a maternidade. Cada uma dessas modificações exige uma reorganização psíquica que incide sobre as vicissitudes de cada mulher
             A autora citada anteriormente faz uma distinção entre D.P.P e Tristeza Materna (baby blues). Ao Passo que a D.P.P é considerada um quadro patológico, a tristeza materna se caracteriza pelo estado de humor depressivo, que costuma acontecer a partir da primeira semana depois do parto. Este humor, para a autora é coerente e condiz com a enorme tarefa de elaboração psíquica dita anteriormente (transformação da filha em mãe, a transformação da auto-imagem corporal, a administração da relação entre a sexualidade e a maternidade).
          Dessa forma, a mulher sente que perdeu o lugar de filha, sem que antes mesmo tenha segurança no papel de mãe, não reconhece seu próprio corpo, pois houve a separação com a barriga, já não é mais de uma grávida, porém, não retomou sua forma original, e por ultimo a chegada de um terceiro elemento entre os cônjuges. O bebê emerge como um outro ser humano aos olhos desta mãe e necessita encontrar um espaço dentro desta configuração anterior (casal) de forma a deixar preservada a sexualidade dos pais
    Na tristeza materna surgem sintomas como irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, tristeza, insegurança, baixa auto-estima, sensação de incapacidade de cuidar do bebê e outros. Apesar de ser algo normal e comum envolve uma quantidade razoável de sofrimento que pode ser minimizado quando compartilhados com outras pessoas que entendam e olhem para esta condição como natural e até benéfica.
         Sendo assim, se faz importante que a família passe a não cobrar atitudes idealizadas pela mídia, como as divulgações que tendem a glorificar o papel da mãe e tratar o humor depressivo da mulher como da ordem da patológica. O que nos é transmitido sobre isso, pelos meios midiáticos, são mães que amamentam com muita facilidade, sem dificuldades ou desconforto, sentindo-se realizada e completa. Uma gestante pode sentir-se completa em algumas fases da gestação. No entanto, o que a maioria das mães de recém-nascidos sentem após o parto é a incompletude, o vazio da barriga, a separação, necessitando de tempo para que possa preencher esses espaços da melhor e da sua maneira.

Comentários